A única lembrança

Minha boca tremia, e eu mal tinha começado a sessão. Uma movimentação de enfermeiros através do vidro da sala me distanciava do mundo, das pessoas, da vida. Meu corpo estava esgotado e o ultimo fio de cabelo já havia caído como sinal de fraqueza. A oncologista entra na sala e começa a colocar todos aqueles fios novamente em meu corpo. A dose exata para complementar minha depressão esta prestes a ser despejada sobre meu seio direito. Eu não me alimentava bem mais, meus olhos fundos denunciavam as noites mal dormidas e as rugas, a ação do tempo. Eu nem sequer tinha quem me amparasse naquela terra paradisíaca, mal eu sabia falar o idioma. E enquanto a médica iniciava a sessão, fecho meus olhos e lembro-me com muita dificuldade do dia que coloquei meus pés nesta terra. Do que passou eu apenas lembrava que havia vindo para ali para viver um “amor de adolescente” mas que o tempo roubara o homem que tornaria aquele sonho possível. A vida havia tirado-o de mim durante um acidente nas montanhas das Ilhas Mauritius e assim fiquei só, sem poder voltar e arrumando um emprego qualquer em uma lojinha de produtos locais. Mas aí o tempo me trouxe um novo desafio e que de início acreditei ser forte, mas que a longo prazo me desmotivou e entristeceu. E se não fosse a minha perda de memória devido a idade, estaria vivo todos os instantes que passei ao lado daquele que deveria estar aqui, me amparando, mas que de meu coração não foge e não perde espaço. Apenas durante uma tarde recente, a lembrança dele se fez viva em mim. Estava eu a cultivar as já murchas flores do nosso quintal, que a tanto tempo eu não visitava. Quando a brisa leve traz um sussurro tímido que adentra meus ouvidos e se instala na minha memória. Era ele, como em espírito a dizer-me: “Não tenha medo, eu estou aqui, e sempre estarei. Você nunca estará sozinha. Eu te amo Clarice.” meus olhos transbordam em lágrimas e sinto um leve tocar de lábios nos meus. E então, aquela era a única lembrança que eu tinha do amor da vida, o homem que me trouxera até ali e que prometera nunca me abandonar. Agora, ali eu me encontrava naquela sala em busca da cura daquele agressivo câncer que me destruía aos poucos, e que não mais me trazia expectativa. Para mim, curar-se traria um resto de vida usufruindo daquele lugar paradisíaco, mas morrer... Ah morrer, tornaria possível o meu encontro eterno com o meu amor.


Conto escrito para a 95º Edição Conto/história do Bloínquês.

10 comentários:

  1. Uau, muito lindo.
    Acho que se for pra viver sofrendo, é melhor descansar, sei lá, eu penso assim, parece que você não vive, apenas sobrevive a base de sofrimentos e tudo mais.
    Eu adorei a nova cara e o novo jeito do blog.
    http://senhoritaliberdade.blogspot.com/

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  2. Que lindo texto! Eu também acho que é melhor descansar a viver sofrendo, tanto o corpo quanto a alma agradecem e o espírito vai para Deus.
    Adorei o texto, de verdade.
    http://www.dinhacavalcante.com/

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  3. parabéns pelo blog,é lindo.Amei o post ^^ http://look8vc.blogspot.com/
    já estou seguindo!

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  4. Adorei o texto, me emocionei em algumas partes, você escreveu muito bem ele, está perfeito!!!

    Bjss

    http://deardiary-sucker.blogspot.com/

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  5. Boa tarde.
    Desculpe a intromissão, mas venho hoje divulgar meu projeto paralelo de resenhas literárias, sob o título de O Leitor.
    Se puder participar, agradecemos desde já.
    Obrigada pela atenção.
    Pamela

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  6. Eiiiiiiiiiiita.... eu me arrepiei, sério mesmo... Nossa, mas que forte!
    Quando eu vi a foto meus olhos até lacrimejaram.

    Tomei vergonha na cara e voltei a postar no meu blog, Ana kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
    Beijos =)

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  7. Lindo demais, romântico demais, triste demais... Demais! Haha
    Muito forte, mas muito bom, não dá vontade de tirar os olhos da tela até o ponto final, e lá então tem aquela surpresa e a pergunta: o que acontecerá com Clarice?
    Nem tem pra que torcer, que tenso!
    Muito lindo ana, tá de parabéns! Vai ser uma honra concorrer com você!
    Beeijos!

    recantodalara.blogspot.co,

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  8. Que triste e lindo ao mesmo tempo, Ana. Me lembrou muito o livro O Morro dos Ventos Uivantes, onde Heathcliff acharia melhor morrer para ir se encontrar com sua amada Catherine do que viver aquela situação. Você expressou tão bem os sentimentos de Clarice nesse texto... Amei.
    Bjo.

    http://miasodre.blogspot.com/

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  9. Nossa, fiquei sem palavras.
    Sabe, seria até bom que Clarice morrese, viver sofrendo não é viver. Mas se ela ainda conseguisse se curar, seria bem melhor, ela poderia encontrar um novo amor e continuar a vida.

    http://nerdsferas.blogspot.com/

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  10. A.M.E.I
    bem profundo o texto. Me tocou bastante!
    beijos

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