Vietnã, junho de 1967


Julia

Não será fácil ir para lá”, foi o que sempre ouvi de você, e realmente não é. Estamos passando por muitas provações Julia, não quero te preocupar, por favor, eu estou bem apesar do que estou prestes a te contar.
Terça-feira, às três da madrugada, enquanto todos já dormiam, ouço um grande estrondo. Eu e os demais médicos acordamos assustados. Rapidamente fui até a janela e a imagem horrenda que me tirou a fala, também me fez estremecer como nunca antes. Uma grande explosão no acampamento dos soldados, e inúmeros outros inimigos que atiravam para todos os lados, e os que fugiam pelo campo de batalha, eram metralhados pelas costas. Não podíamos ir lá e muito menos fazer barulho, estávamos a menos de quinhentos metros e qualquer suspeita dos inimigos de que estávamos ali, também nós seriamos mortos. Pedi que todos fizessem silêncio e cobri a pequena janela do pronto-socorro improvisado, deixando apenas uma pequena fissura, para que eu pudessem acompanhar os passos daqueles grotescos homens de sangue frio. Permanecemos ali em silêncio por pelo menos uma hora. Os inimigos se iam aos poucos, enquanto outros vasculhavam a procura de algum sobrevivente, até que todos se foram. Avisei que ficaríamos ali por mais quinze minutos, para ter certeza que podíamos sair sem perigo. Quando finalmente o tempo passou, disse-lhes, “homens, tenham força! Sejamos esperançosos a procura de sobreviventes”. Ao sairmos do pronto-socorro a paisagem era monstruosa. Soldados estraçalhados, sem cabeça, metralhados. Seus rostos transmitiam dor de quem não tivera chance de se defender. Percorremos o acampamento a procura de alguém para salvar, mas a realidade esmagava toda e qualquer esperança. Quando já voltávamos para o pronto-socorro, ouvi Stevan, um médico novo da nossa equipe, gritar, “ali, ali, há um soldado vivo” ele apontava para o campo de batalha e rapidamente correu ao seu encontro. Meus olhos se arregalaram, meu coração parou e um grito soou do fundo da minha garganta: “Não!” Já era tarde, a imagem de Stevan pisando em uma mina e explodindo passou em câmera lenta diante meus olhos. Seus restos se fizeram pequenos enquanto seu sangue caia como chuva escura. Uma lágrima escorreu em meu rosto sujo. Ninguém havia o avisado que não podia andar no campo de batalha. Agora além de todo o exército dizimado, também um médico americano recém chegado morrera acidentalmente. Depois do acidente minha vida nunca mais foi a mesma . Voltamos ao pronto-socorro e entramos em contato com o comandante, comunicando o que havia acontecido.
Aqui te escrevo pois consegui um tempo. Estamos preparando os corpos dos soldados para enviar às famílias, para que ao menos possam enterrar seus filhos, parentes, pais, netos. Quando tudo isto acabar, iremos todos embora, já que não há continuidade agora sem os soldados. A cada bala que retiro dos corpos ensanguentados, a imagem daquele jovem médico me vem, embaçando meus olhos. E mesmo depois que eu voltar Julia, não mais serei o mesmo. Espero que esteja preparada para esta mudança. Quero apenas sair deste pesadelo que estou vivendo agora. Em julho chegará um novo exército, e a guerra? Bom, ela continuará, porém sem mim. Sinto saudades.

Leonardo.

Carta escrita para a 64º Edição Cartas do Bloínquês

12 comentários:

  1. Menina, você usou de uma criatividade incrível ao redigir essa carta. Parabéns. As palavras foram muito reais, eu realmente gostei. Continue assim.
    Bjo.

    http://miasodre.blogspot.com/

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  2. Corre lá no Projeto Atrás do Pensamento que tem novidade.
    Beijos

    Pamela, moderadora.

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  3. Que lindo seu texto! Adorei sua criatividade, abusou do tema e fez uma carta digna de primeiro lugar! Parabéns :D
    www.dinhacavalcante.com

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  4. Nossa, muito bom, muito bom mesmo. Lendo essa carta, me senti como se estivesse lá, vivendo todos os acontecimentos retratados.
    Parabéns e boa sorte!
    Beijos*-*
    http://cartasp-voce.blogspot.com/

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  5. Eu acho que não vou conseguir te explicar o tanto que eu gosto desse tipo de temática. Sério. Me dá um aperto no coração toda vez que leio ou assisto filmes que tratam de guerra, especialmente de soldados. Faz eu sentir como se as coisas fossem mais reais, sabe? Porque a gente ouve falar tanto - e eu, no caso, estudo bastante -, mas é tão frequente que a gente acaba achando meio banal. No fim das contas, não se choca mais. E ler ficção, no meu caso, ameniza um pouco isso. Parabéns. Gostei bastante.

    :*

    http://hey-london.blogspot.com

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  6. Que lindo aqui *--*
    eu super adorei

    estou seguindo..
    retribui??

    beijos
    http://momentosdapathy.blogspot.com
    http://pathyoliver.blogspot.com

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  7. Uau, muuuuuuuuuuuuito criativa. Olha, deve ser realmente muito difícil ver vários amigos morrendo, imagine ver um na sua frente? Imagino que damos mais valor a vida, vendo essas coisas, a vida é tão frágil, não é? '-' Adorei,mesmo <3
    http://senhoritaliberdade.blogspot.com/

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  8. Que lindo texto, me emocionei. A perda é realmente dolorosa e dessa forma mais ainda. Toda vez que passo por aqui me encanto com suas palavras, parabéns & sucesso sempre!

    http://iasmincruz.blogspot.com/

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  9. Nossa Ana, meus olhos estão inundados aqui, nunca li nada parecido, que história linda e triste. Sempre digo que somos pessoas abençoadas por não nos encontrarmos em guerras assim. Perder pessoas inocentes e aquelas que são destinadas a salvar vidas é doloroso demais. Essa carta com toda a certeza vai ficar na minha memória, assim como a imagem do jovem médico na memória de Leonardo.
    Parabéns Ana e certamente o primeiro lugar é teu. :D ♥
    Ah, adorei o lay novo, me senti nas nuvens. hehe

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  10. Sua carta ficou ótima, e foi muito criativa. Nunca vi algum texto escrito para esses concursos de comunidades com tanta criatividade, e um tema tão diferenciado. Adorei! :-)

    Beijo
    http://www.garotasdizem.com/

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  11. nossa, me emocionei. Uma história tão grotesca e tão humana... Me apavora até hoje os terrores da guerra, mesmo que as vidas perdidas estejam entre os livros na minha mochila, ainda estão lá, como números, e raramente como pessoas.
    Mas histórias como essa nos fazem lembrar que por trás de cada zero nas centenas, milhares ou milhões de mortos, há um ser humano.
    Me envolvi com os personagens demais tmbém. Vi o médico sendo morto na mina frente. Enfim, amei a carta, primeiro lugar com certeza! :)
    beeijos!

    recantodalara.blogspot.com

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  12. Nossa, essa carta me tirou todas as palavras, sinceramente escorreu lágrimas dos meus olhos, e esse final, "a guerra continuará, porém sem mim".
    Que lindo!
    Amei mesmo.

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